Textos · Política

"Não acho que estou sendo psicanalista"

O PROBLEMA DA LEGITIMIDADE DO ANALISTA A PARTIR DE UM IDEAL CLÍNICO E A OCULTAÇÃO DE PROBLEMAS POLÍTICOS

Eu não sei você, mas já me coloquei essa questão algumas vezes, e é muito comum que pessoas cheguem a supervisão com essa pergunta: será que estamos sendo analista nesse caso? estou sendo psicanalista ou psicólogo? (inclusive como se psicólogo fosse um demérito), pois bem.

A resposta geral do campo frente a isso é examinar uma intervenção pra posicioná-la dentro ou fora da seara psicanalítica, afinal de contas, só há analista se houver um ato analítico, não é isso que sabemos? isso frequentemente culmina numa exclusão individual daqueles que "não fazem jus" a tal tipo de intervenção: fulano não é psicanalista de verdade, apontam.

O mais interessante é que nos fazemos esse tipo de pergunta justamente quando estamos diante de intervenções mais "amigáveis", não ríspidas, atos de cuidado e acolhimento, e às vezes até mesmo de educação. Curioso né?

Porém, nessa história há um problema enorme que se acoberta: um problema de ordem política; vem comigo:

Imagem ilustrativa — A legitimidade do analista

A ideia de que só analista a partir de um ato é uma elaboração teórica lacaniana que surge num momento histórico específico: diante dos rompimentos institucionais, Lacan se vê fora das balizas institucionais que pudessem legitimá-lo enquanto analista frente aos outros, e instaura um novo compromisso com uma nova hipótese sobre o seria um analista.

No livro de Gabriel Tupinambá (O desejo de psicanálise), recorrendo às intervenções de Althusser no momento de saída de Lacan da escola, o autor coloca em questão como a fundamentação sobre o que poderia ser um analista vai se tornando cada vez mais individual (ainda que o analista se autorize por "alguns outros"), pois o critério de legitimidade de um analista se sustenta cada vez mais em uma instância intrapsicanalítica (p. 94), um ponto indiscernível interno ao próprio setting, tratado como dimensão decisiva do procedimento analítico. (Seminário 15)

Enquanto isso, a teoria do passe que poderia fundamentar de maneira enlaçada teoria, clínica e instituição foi considerada um fracasso pelo próprio Lacan. (Tupinambá)

Da teoria sobre o desejo do analista, logo surge a elaboração de Lacan sobre ato e posteriormente sobre discurso, distanciando cada vez mais a premissa do que seria um analista da figura do próprio analista.

E assim o ato analítico se tornou um ideal do que significa pertencer a comunidade analítica - um critério de pertencimento de classe que foi, mais uma vez, deslocado a um ideal clínico.

Althusser inclusive faz questão de marcar que aquilo que a maioria dos psicanalistas interpretavam como ato analítico em relação a saída de Lacan da IPA era, na verdade, um ato político. Sendo assim, não poderia ser uma decisão individual, tal como feita por Lacan, mas pensado e discutido democraticamente por todas as partes interessadas.

Imagem ilustrativa — Reconhecimento da classe analítica

O problema disso tudo recai hoje em nosso campo na falta de um ponto comum de reconhecimento da nossa classe. Afinal, "como identificar e agrupar o conjunto daqueles que teriam como única propriedade compartilhada a tarefa de dissolver identificações de grupos? ou seja, psicanalistas?" (Tupinambá);

Como nos reconhecemos uns nos outros? Quando temos notícias de alguém que trabalha de forma diferente da nossa, o que fazemos em relação a isso? Tomamos como problema nosso? ou refutamos do campo assumindo que o tal não é psicanalista de verdade?

Como ultrapassar esse ideal clínico como critério para o reconhecimento da nossa classe e resgatar as consequências (que incluem raça e gênero) que se impõe no campo do trabalho aos que se submetem a uma formação analítica?

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Referências

ALTHUSSER, L. "Escritos em psicanálise: Freud e Lacan"

LACAN, J. "O seminário 15, o ato psicanalítico - aula 15.11.67"

TUPINAMBÁ, G. "O desejo de psicanálise - exercícios de pensamento lacaniano"

ROUDINESCO, E. "Lacan - esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento"